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Otimismo no bancão

Para comandar sua recém-criada Diretoria de Project Finance, o Itaú BBA foi atrás de um profissional com ampla vivência em regulação, a fim de concentrar fogo em áreas de energia e infraestrutura. Ex-funcionária de carreira do BNDES, no qual exerceu vários cargos de gerência, e ex-diretora-presidente da Anac, Solange Vieira assumiu o desafio. Nesta entrevista, dada juntamente com a chefe do Grupo de Energia do banco, Lara Fenolio, ela diz que há boa oferta de recursos e que as perspectivas são bastante atrativas. Não somente em relação ao que há por fazer, mas também para corrigir demandas que deixaram de ser atendidas no passado. “A demanda por investimento é enorme.”

A área de project finance surgiu com alguma meta em especial na área de energia?

Solange Vieira – Nossa meta é ser o primeiro banco da América Latina na área de project finance, dentro dos nossos segmentos de atuação. Já ganhamos dois prêmios, da Project Finance Magazine e da Project Finance International Magazine, por conta da estruturação do financiamento para o projeto da plataforma OSX-2, juntamente com outros dois bancos. Começamos com o pé direito.

Que oportunidades a sra. Vê na área de energia?

SV – Nossa aposta é que o setor vai crescer ainda mais. Estamos prevendo muitos investimentos para o Brasil nos próximos anos.

O que há de positivo no cenário, já que as avaliações preliminares do PIB para 2012 não são animadoras?

SV – O Brasil não apenas está acompanhando o crescimento, mas corrigindo necessidades de investimento de décadas passadas. A demanda por investimento, portanto, é enorme. Mesmo com baixo crescimento do PIB, as previsões na área de energia são muito altas. E temos dois grandes eventos internacionais pela frente, a Copa do Mundo e as Olimpíadas, que também estão mexendo com a infraestrutura urbana. Independentemente do futuro, o passado está demandando novos investimentos.

Com a situação incerta na Europa, o crédito continuará disponível?

SV – É lógico que se a situação da Europa piorar muito e, em consequência, a China vier a sofrer, isso afetará o Brasil. Mas, pela situação atual que vemos e pelo que aconteceu até agora com a China, os projetos estão caminhando. Estamos identificando boas perspectivas. Curiosamente, a crise europeia acabou nos ajudando na parte eólica. Os preços dos equipamentos caíram muito por conta do desaquecimento ocorrido lá, com reflexo positivo nos preços dos leilões de energia.

O Itaú BBA financia algum projeto eólico?

SV – Temos vários projetos eólicos. Somos um grande financiador, mas não podemos citar os clientes. Hoje, eólica e termelétrica são as duas modalidades que predominam na carteira do banco. Temos R$ 5,1 bilhões em operações estruturadas, das quais cerca de 70% se referem a térmicas e eólicas.

Os fundamentos do setor estão, portanto, favoráveis?

Lara Fenolio – Os fundamentos do setor são muito bons. O marco regulatório está bem entendido. A frequência anual de leilões de energia nova é um drive de crescimento que atrai investidores. Mas há desafios, como a agenda da renovação das concessões. Isso cria incerteza e impacta projetos que têm exposição a preço futuro de mercado de energia.

Qual deve ser a tendência: renovação ou relicitação?

LF – Tudo aponta para a renovação, mas entendemos que o importante é definir um caminho. Isso porque a variação e a expectativa formada sobre preços futuros de energia são um componente importante para a decisão de novos investimentos. A questão ambiental também ganhou relevância. Em setores onde ela não era tão importante, como transmissão, há hoje uma importância maior. Além disso, as hidrelétricas na Amazônia sempre causam bastante discussão com os financiadores.

Como contornar isso?

LF – Tem de haver planejamento integrado entre geração e transmissão, inclusive do ponto de vista geográfico. Há hoje muita discussão sobre a forma de contratação da energia quanto a descentralização e regionalização.

Seria melhor ter leilões regionais?

LF – Se não houver uma distribuição geográfica vai haver predomínio de determinadas fontes em determinadas regiões. Por exemplo, se há predomínio de geração interruptível, como eólica, numa determinada região, isso pode dificultar bastante o planejamento da transmissão.

SV – Os últimos leilões foram sem separação de fontes, e isso acaba gerando concentração. Com os preços praticados, as PCHs, por exemplo, tendem a ficar inviáveis.

LF – E as PCHs ainda podem servir de complementação às eólicas. É um mix de energias renováveis que se somam, do ponto de vista climatológico. É preciso trabalhar uma agenda específica para PCHs, porque elas são fonte importante para nossa matriz.

SV – Outro ponto a ser considerado é a introdução da tecnologia da energia solar. Acredito que em três ou quatro anos poderemos discutir energia solar em larga escala. O Brasil tem grande exposição solar, e isso deve criar um novo balanceamento na matriz.

Como ficam as térmicas a gás, já que a Petrobras não tem como garantir o combustível?

LF – O domínio no suprimento do combustível é fator chave para as térmicas. Há o novo marco do gás em regulamentação que vai ajudar no desenvolvimento de mecanismos de importação, mas, ainda assim, dependentes de terminais de regaseificação. Na nossa visão, o Brasil vai precisar de térmicas. Elas podem ser acionadas a qualquer momento.

Por que o mercado está mais favorável a project finances do que a financiamentos corporativos?

SV – Ao longo dos últimos cinco anos aumentou demais o volume de investimento, e os financiamentos corporativos sobrecarregam muito os balanços das empresas. Numa estrutura de project finance há maior liberdade para não sobrecarregar o balanço financeiro.

LF – O setor elétrico acaba tendo no BNDES seu principal originador de recursos. É natural que os investidores busquem primeiro o melhor retorno para seus acionistas, e o BNDES acaba sendo o provedor de funding mais competitivo do mercado, por causa da taxa (TJLP mais 6% ao ano).

Como competir com isso?

LF – O BNDES tem demonstrado uma abertura para compartilhamento de garantias com dívidas complementares. Ou seja, há uma complementação que está começando a acontecer e tende a ganhar mais força do que uma substituição.

A estruturação de um project finance continua tão complexa como quando de sua introdução no Brasil, em meados da década de 1990?

SV – Não, mas ainda está em evolução. Não temos no Brasil um project finance puro, no qual o risco é 100% do projeto desde o início. Ele nasce um pouco com garantias corporativas no princípio e depois, conforme vai entrando em operação, essas garantias vão sendo liberadas, e o próprio projeto passa a ser o risco da operação. É uma maturidade pela qual os bancos estão passando. Estamos todos aprendendo, e num futuro bem próximo será possível uma estruturação pura, onde o risco já se inicia com o projeto.

No segmento eólico, diante de atrasos, questões ambientais, empreendedores inexperientes, etc., como o banco seleciona os projetos?

LF – Na nossa análise conta menos o empreendedor em si e mais a qualidade do projeto como um todo, robustez contratual, as garantias dentro dos contratos de fornecimento durante o período de construção, o cronograma e o cuidado com a implantação. Ocorre uma seleção natural. A assessoria e a estruturação financeira são importantes para guiar os investidores.

SV – Faz parte da nossa assessoria colocar o projeto de pé junto com o acionista.

A razão da atual concentração de recursos em eólicas e térmicas é consequência do risco envolvido nas demais modalidades?

LF – A construção de eólicas e térmicas é mais simples. Na fonte hídrica há um risco de construção muito mais relevante.

SV – Mas é igualmente importante saber qual é a construtora, se tem experiência na área. A estrutura do project finance não é estudar apenas o gerenciamento, e sim toda a estrutura contratual. Nossa assessoria sugere construtores, aproxima pontas. Alertamos quanto a pontos críticos do projeto.

A estruturação de projetos exclusivos para o mercado livre vem acontecendo?

SV – Sim. Já financiamos um projeto eólico para o ambiente livre. É um pouco mais trabalhoso, porque há uma estrutura contratual que tem de ser montada.

Quais as principais peculiaridades?

LF – O risco do comprador de energia é um componente importante. Segundo, o prazo do contrato, atrelado ao contrato de financiamento, tem de ser compatível. E a sazonalidade da geração eólica precisa estar bem tratada no contrato. Nos leilões (do mercado regulado) há um sistema de mitigação para essa situação que é claro e conhecido, os credores já entendem. No mercado livre cada contrato tem de tratar disso de alguma forma. Há, porém, uma tendência de crescimento, e com níveis de preços melhores do que os verificados nos leilões.

O mercado de transmissão também interessa?

SV – Sim, é o nosso terceiro mercado no setor elétrico, depois de térmica e eólica. Estamos prospectando alguns projetos do leilão de dezembro último.

Com quais outros mecanismos de captação de recursos o banco trabalha no momento?

SV – Eu destacaria as debêntures. O projeto de lei foi regulamentado em novembro do ano passado (Lei 12.431) e permite isenção tributária. Foi um primeiro passo em mecanismos financeiros de incentivo ao desenvolvimento dos projetos de longo prazo, e nossa expectativa é que mais flexibilização e mais oportunidades de produtos financeiros com incentivos tributários possam surgir, para que esse mercado consiga se desenvolver. Estamos aguardando a regulamentação para começar a fazer emissões e atrair investidores estrangeiros para alguns projetos.

E como estão as perspectivas em óleo e gás?

SV – Com o pré-sal vimos quase uma triplicação do volume de investimentos existentes no setor. O grande desafio é a internalização da capacidade tecnológica e da mão de obra qualificada. É uma oportunidade completamente nova e que deve gerar um efeito multiplicador muito grande na economia brasileira.

Quais as oportunidades que estão no radar?

SV – O banco já está financiando projetos de desenvolvimento de plataformas em estaleiros brasileiros. Não podemos revelar por conta de acordos de confidencialidade.

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